Ola a todos! Graças à uma produtiva conversa com Emerson Gonçalves, comentarista do Globoesporte.com , resolvi ressuscitar este triste e sozinho blog. Publico aqui a minha segunda resposta. caso tenham interesse em acompanhar o debate, acesse: http://colunas.globoesporte.com/olharcronicoesportivo/
Caro Emerson,
Fiquei muito feliz em ler e entender melhor o seu ponto de vista sobre os estaduais e agora vou fazer de tudo para sistematizar melhor minha opinião e demonstrar a razão de eu achar que você está equivocado em algumas partes cruciais da sua argumentação. Vamos lá.
Primeiro, devemos dividir esta discussão em dois pontos de vista, como você mesmo fez. A quem interessa aos estaduais? Aos pequenos ou aos grandes? Quanto ao ponto de vista dos grandes tenho certeza absoluta que você domina muito mais do que eu seus balanços e receitas, estratégias e planejamentos,mas mesmo assim vou ousar umas respostas às suas considerações.
Quanto à distribuição das cotas de TV, lembro que na ocasião em que o Manoel da Lupa reclamou que a Portuguesa vinha sendo tratada como time pequeno, argumentou que os quatro grandes receberiam 7.5 milhões enquanto que os times pequenos não passariam dos 1.4 milhões, se dividirmos estes 7.5 mi entre os 4 e dividirmos pelo número de partidas dá algo em torno dos 81521 mil reais se não estou enganado. O que é muito bom no meu ponto de vista. Mas mesmo usando os dados de que os estaduais geram 40% dos jogos do brasileiro acho este número perfeitamente viável e combina com a importância dos estaduais em relação ao Brasileirão. É um absurdo carregar um campeonato que tenha 40% da importância do campeonato mais importante? Não acredito. Se lembrarmos da Europa e deixarmos de lado a visão romantizada da perfeição de suas ligas, vemos que seus calendários contam não só com uma mas DUAS copas anuais. Estas copas comem datas também e são tão ou menos interessantes que a nossa copa do brasil, pois afinal cada liga europeia conta com 2 ou 3 times grandes no máximo. No entanto, estas ligas servem para dar vida aos pequenos.
Ainda sobre os grandes, os clubes brasileiros tem bastante autonomia no que diz respeito à política de decisão de campeonatos. Eles sabem que eles são as estrelas e não as federações, deixemos de lado um pouco esta romantização dos clubes porque sabemos que os dirigentes que estão lá são seres humanos assim com os das federações e as decisões deles são baseadas tanto no bem-estar de seus clubes quanto no seu próprio, logo, podemos creditar algumas iniciativas ao bem dos clubes e outras ao bem dos próprios dirigentes. Por exemplo: quando os clubes entraram em disputa com a FERJ do Caixa d’água, não pensaram duas vezes em esvaziar o campeonato e irem jogar um Rio-São Paulo. Ou seja, o poder reside neles e se os Estaduais continuam fortes devemos isto aos clubes que ainda acreditam e se submetem aos Estaduais.(Lembro aqui daquela discussão no seu antigo blog sobre a Record e a Globo e os direitos de transmissão, em que os clubes foram cruciais para manter o monópolio da Globo, mesmo indo contra a lei mais básica do mercado que é, quem paga mais tem direito.) Tirando os 5 clubes que anualmente vão jogar a Libertadores e que estão longe de representar a massa de times do futebol brasileiro, estes sim tem reclamado bastante dos estaduais, especialmente o grêmio neste ano. Mas, o que faremos? Montaremos um calendário baseado nos cinco times sempre-campeões de tudo que se dão bem e arrancaremos dos outros mortais a possibilidade de disputar um campeonato que é, sim, interessante? Não concordo com isto.
Sem contar que, ao montarmos um calendário baseado somentes nos grandes times do país, destroçamos toda a estrutura do futebol existente nos outros estados, porque convenhamos, a elite está em quatro estados. Os outros estados já penam em acompanhar os calendários da forma como está. Imagine então o que faria o Santa Cruz e o Figueirense enquanto São Paulos e Flamengos estão excursionando na ásia fazendo dinheiro? Falência na certa. (isso porque estou falando de grandes de outros estados e não pequenos).
Mas vamos lá, São Paulos e Flamengos vão para a Europa e pra Ásia fazer dinheiro. Este é o caminho para melhorar a marca? É correto o argumento de que os times europeus basearam suas marcas nestes tipos de torneiozinhos de verão mixurucas? Não acredito também. A marca hipervalorizada dos times europeus advém de uma federação quase ou mais poderosa que a própria FIFA. A UEFA é um monstro e agrega poder e valor aos times que participam de seus campeonatos. Por que o campeonato mundial não é valorizado como você mesmo ressaltou? Oras, porque a UEFA não tem nenhum interesse em organizar o segundo maior campeonato do mundo entre clubes, dando lugar ao Campeonato mundial FIFA. E eles tem poder pra isso, sabemos disso. Moro na europa e concordo plenamente com você. Ninguém aqui dá a mínima para o campeonato mundial. E se não dá a mínima para o campeonato mundial vai dar para torneiozinhos de verão mixurucas? Acho que não. Vide o caso do botafogo que veio aqui à Europa ano passado fazer um desses torneiozinhos e não levou muito pra casa em termos de ampliação da sua marca. É a mesma competição desleal entre a EURO e a Copa américa.
Vamos lá, agora aos times pequenos. Para falar de times pequenos temos que pensarmos como se estivessemos nos anos 50, quando ainda Recife e Porto Alegre eram mundos distintos. Não dá pra pedir uma reformulação de campeonatos nacionais onde times destas duas cidades se encontrem antes de que estes campeonatos sejam verdadeiramente rentáveis para fazer estes times precisarem se encontrar. O que quero dizer com isto? Todo mundo sabe que a série C é um campeonato que traz mais despesas do que receitas. Levando em consideração o caso do Rio Grande do Sul, que eu conheço um pouco mais. Lá, a federação gaúcha tinha três vagas para a série C daquele ano e pagava uma espécie de bolsa aos dois times melhores colocados no gaúchão 2007 para jogarem a série C, o terceiro time tinha que se virar. O que aconteceu? O terceiro time, que era o Veranópolis, se não me engano, cedeu a vaga porque não tinha dinheiro, em seguida, Guarany de Bagé, Brasil de Pelotas e Esportivo entraram em disputa pela vaga, que ficou com o Esportivo que era o único que tinha dinheiro. No distrito Federal, no ano passado, o Ceilândia passou a vaga pro Legião porque também não tinha dinheiro para disputar a terceirona. Os exemplos se multiplicam. Veja o Marcílio Dias que está prestes a largar a série C deste ano, que já é algo muito mais importante.
Acompanhei de perto alguns times nos Estaduais e fica claro que pra eles a série C de antes ou a D de agora não vale a pena. Simplesmente porque não tem grana lá, não tem cota de TV, não tem nada. Só estradas esburadacas, pagamento de salário e uma remotíssima possibilidade de subir à série B (agora C), que é tão remota que nem vale a pena, tendo em vista que estas 4 vagas normalmente são ocupados por times grandes de regiões periféricas que por acaso viveram um momento ruim na série B, tais como o Vila nova, Bahia, Atlético goianiense, Bragantino entre outros.
Concordo plenamente que precisamos de uma pré-temporada digna para os atletas para que eles possam render bem durante todo o ano, mas não acho que esta pré-temporada tenha que ser feita com torneios skol de verão pra lá e pra cá, afinal isso cansa também. O inter de Dubai, por exemplo, não conseguiu nem chegar às semis do gauchão. Acho absolutamente justo um campeonato estadual em que os menores se encontrem primeiro, deixando o calendário alargado e passem à uma segunda fase junto com os grandes, com diminuição de datas, mas sem diminuição da importância da competição.
Concordo plenamente que devemos reestruturar as séries inferiores nacionais. Mas enquanto ninguém sinalizar para uma proposta decente, acabar com os estaduais ou tirar seu poder é atirar contra a malha extensa de times profissionais do país.
Um grande abraço e obrigado pelo debate!
3 comentários:
Pedro, o texto do Emerson tem algumas reflexões bem interessantes, embora o Emerson vê no Estadual apenas uma forma arcaica de controle de um punhado de cartolas de federação. Se isto existe, não é só com isso que se avalia o Estadual.
Por outro lado, acho que a experiência de futebol entre Brasil e Europa é distinta e o Estadual é prova disso, faz parte do calendário, assim como da cultura futebolística do país. Porque a Europa não possui estadual, logo nós que possuimos somos anacrônicos? Prefiro correr o argumento pelo caminho inverso, ao achar o Estadual não anacrônico mas antes enraizado no nossa experiência de futebol.
Por outro lado, o espaço que o Estadual ocupa no calendário pode ser melhor aproveitado, eu penso na inclusão ou na volta dos campeonatos regionais que, sem substituir o estadual, poderiam dar mais visibilidade e mais rendimento a outros clubes do país, como meu Botafogo-PB, que quantas vezes não jogou de igual pra igual contra os grandes do Nordeste na época da Copa Nordeste..hehe...aquilo parecia final da Champions League, faz falta!
Abraços e parabéns pelo debate.
Oi Pedro! Com aquele nível de breguice não existe nenhum não, mas eu tenho um pessoal! Este é o endereço: www.daibloga.blogspot.com Ps: Ainda não me esqueci das pedras na mochila!
Pedro, eu fiquei impressionado com o link que vc me mandou e repassei para todas as pessoas que conheci até hoje em todos estes meus anos de vida. Obrigado por compartilhar! Continue com o blog sempre, independente de ter ou não comentários. O que importa é você colocar as ideias na net mesmo (melhor que colocar pedras nas mochilas dos outros). Abraços! :)
Postar um comentário